Descubra uma única coisa que possa ser melhorada em uma comunidade da qual você é parte (seu prédio, rua, escola, trabalho etc.). Compartilhe, em detalhes, como você resolveria. Espero que não haja problemas em relatar uma coisa que vi que poderia mudar há algumas semanas e que passei a me engajar integralmente. No começo deste semestre, avistei a possibilidade de fazer uma coisa que queria há muito tempo; irradiar meu ativismo pelo consumo. Afinal, esse é um tema que as pessoas não falam muito. No dia do meio ambiente, por exemplo, fui chamado para compor uma mesa de um evento de comemoração na Assembléia Legislativa de São Paulo. Eu fui o único que falou sobre consumo dentre aquele monte de ativistas e ambientalistas! E assim tem sido em muitos dos eventos sobre sustentabilidade, economia solidária, responsabilidade social que tenho ido. As pessoas falam em reciclar, mas quase não vêem que é necessário saber mais sobre a procedência dos produtos que compram. Não enxergam a importância de reduzir o consumo, mudar hábitos. Que dirá buscarem saber se seu consumo é sustentável não só ambientalmente, mas socialmente e economicamente, sem gerar externalidades.
Não quero parecer dono da verdade, ou algo assim, buscando mudar padrões de consumo das pessoas da minha comunidade, em cima do que acho certo. Isso seria quase um narcisismo moral, ou um "eu sou melhor que vocês, e se vocês não são sustentáveis, são pessoas ruins" - isso jamais. Mas sempre acredito que a reflexão, o
diálogo* e a construção coletiva são sempre bem-vindos, e no caso da nossa sociedade de consumo, mais bem-vindos ainda. Tendo isso em mente, resolvi que poderia, dada uma oportunidade que tinha em mãos, despertar nas pessoas da minha faculdade a oportunidade para refletirem sobre o papel e impacto do seu consumo sobre a sociedade. E essa chance era um empreendimento de comércio justo que passei a incubar; que faz a distribuição de alimentos orgânicos, agroecológicos e biodinâmicos, além de detergente ecológico e outros produtos advindos de empreendimentos de Economia Solidária. A proposta desse empreendimento é distribuir em núcleos de consumo esses produtos que mencionei. A FGV era um deles e decidi que poderia usar minha rede de contatos e uma boa estratégia de divulgação para alavancar o número de associados ao núcleo, que antes só tinha como consumidores os próprios membros da Incubadora.
Depois de muito pensar sobre como faria a gestão operacional, logística e de marketing, me inspirei numa metodologia própria da ITCP-FGV que é a comercialização em espiral. A idéia original é comercializar primeiramente para o seu bairro, sua cidade e conforme for ganhando escala, ir ampliando regionalmente. Decidi reaplicar essa idéia de espiral territorial para uma espiral social. Comecei com os departamentos da escola que tinha mais proximidade e que tinham mais a ver com o assunto. A estratégia consistia em se aliar com atores influentes, que compartilham de valores como sustentabilidade, redução do consumo, desenvolvimento local, economia solidária, ética, etc.
Precisava também ter uma abordagem cordial, de proximidade e que não parecesse ser uma jogada do marketing, sem cair no fetichismo próprio dessa nossa sociedade do consumo. Após noites de insônia (quando começo a ter inspiração, passo a noite em claro anotando minhas idéias), montei a estratégia de divulgação que se adequasse à minha estrutura operacional, logística e de custo quase zero. Convenci o produtor de pão integral orgânico a me dar amostras grátis para que eu divulgasse seu produto para as pessoas mais próximas, dentro da estratégia em espiral. Com um bom papo, a proposta de tecer outras relações de consumo, a pauta da sustentabilidade em alta e um pão insanamente cheiroso e saboroso, pude divulgar a proposta, tateando o interesse das pessoas. Com o feeling sobre como se sentiram com essa abordagem, consegui direcionar um texto bacana junto com o catálogo de produtos.
Assim nascia o Núcleo de Consumo Ético e Solidário FGV. Hoje comemoro a 1ª entrega dos produtos. Passei o dia subindo e descendo a faculdade entregando pacotes. Que satisfação em ver as pessoas elogiando o cheiro do pão e a iniciativa! Mais detalhes dessa história, conto nos próximos posts!
Para ver a apresentação que montei sobre o Núcleo,
clique aqui. *Fiz questão em assinalar a palavra diálogo, pois é uma coisa preciosíssima que busco disseminar. Sempre friso para as pessoas a diferença entre diálogo e debate. Enquanto o último destrói, pois busca sobrepor uma idéia a outra, o diálogo constrói, pois possibilita a existência de idéias opostas serem complementares umas às outras. Essa, portanto, é a proposta, tão Freiriana por sinal, de não procurar impor minhas verdades, mas de dialogar junto às minhas verdades, neste caso sobre padrões de consumo.